Criador de Dead Space diz que IA pode salvar jogos AAA e pede adaptação dos artistas



O Futuro dos Jogos AAA: Glen Schofield e a Criatividade em Tempos de Crise



O Futuro dos Jogos AAA: Glen Schofield e a Criatividade em Tempos de Crise

Glen Schofield, criador de Dead Space e fundador da Striking Distance Studios, estúdio responsável pelo sucessor espiritual da franquia, The Callisto Protocol, voltou a falar sobre o futuro dos jogos AAA. Neste cenário, ele sugere que a saída para a crise que afeta o segmento envolve dois elementos cruciais: colocar as pessoas certas no comando e abraçar as ferramentas de inteligência artificial generativa (GenAI), mesmo reconhecendo os limites dessa tecnologia.

O Problema: Dinheiro Demais nas Mãos Erradas

Segundo Schofield, a raiz da crise atual no desenvolvimento de jogos AAA se encontra no intenso ciclo de investimentos que emergiu durante a pandemia de COVID-19. Com a demanda por jogos em alta enquanto as pessoas estavam isoladas em casa, bilhões de dólares foram injetados na indústria de maneira descontrolada.

“Durante a pandemia, não conseguíamos fazer jogos AAA rápido o suficiente. Todo mundo queria um jogo grande, porque todo mundo estava em casa jogando. Bilhões de dólares despejaram na indústria. Quando você tem tanto dinheiro entrando, inevitavelmente acaba dando para as pessoas erradas”,

Glen Schofield

Ao mencionar as “pessoas erradas”, Schofield se refere mais à experiência do que ao caráter. Muitos dos líderes que comandaram estúdios durante esse período estavam longe de ter a maturidade necessária para liderar projetos tão grandes.

Investidores Sem Critério e a Fatura do Bungie

Além da liderança inexperiente, Schofield critica os investidores que não realizaram a devida diligência antes de injetar dinheiro em projetos. Um exemplo emblemático é o da Bungie, onde investimentos excessivos levaram a demissões massivas e a um desalinhamento entre expectativas e a realidade do desenvolvimento.

“A diligência das pessoas que investem é terrível. Pense no Bungie! Eles estavam pagando demais e não estavam pagando as pessoas certas em muitos casos.”

Glen Schofield

Adquirida pela Sony por aproximadamente US$ 3,6 bilhões em 2022, a Bungie enfrentou desafios como demissões em massa e conflitos internos, revelando o impacto negativo de decisões apressadas nos aquisições.

A Solução: Criatividade Genuína, Não Simulada

Schofield propõe que o foco deve estar em identificar aqueles que são verdadeiramente criativos dentro das organizações, ao invés de simplesmente escolher quem parece ser. Para ele, a verdadeira criatividade é essencial para inovar na indústria dos jogos.

“Há muita gente que copia muito bem. As pessoas não-criativas precisam raspar mais fundo para encontrar os criativos de verdade, que por sua vez vão ajudá-las a contratar as pessoas criativas certas”, afirma ele.

Aprender IA ou Ficar para Trás

Um ponto controverso levantado por Schofield é a necessidade dos artistas de incorporarem a inteligência artificial em suas práticas. Ele compara este momento ao passado, quando surgiram tecnologias como captura de movimento e performance capture, inicialmente vistas com desconfiança.

“Eu gostaria que os artistas percebessem que esse é um ótimo momento para aprender alguma forma de IA… Eles dizem que rouba o trabalho dos artistas. Tarde demais! Isso já está no mundo.”

Glen Schofield

Pela sua perspectiva, se usada como uma ferramenta para acelerar o processo criativo, a IA pode expandir as possibilidades em vez de substituir o componente humano.

IA Como Economizadora de Tempo, Não de Gente

Schofield ressalta um ceticismo saudável em relação à ideia de que a GenAI pode simplificar o desenvolvimento de jogos a um ponto onde uma equipe reduzida de 20 pessoas é suficiente. Ele argumenta que o desenvolvimento de jogos é um processo intrinsecamente detalhista e iterativo que não pode ser automatizado facilmente.

“Eu quero acreditar nisso, mas… é sobre ser extremamente sutil.”

Glen Schofield

Ao invés de enxergar a IA como uma forma de cortar custos e reduzir equipes, Schofield defende que a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta para otimizar e acelerar a criatividade.

O Que a Indústria Pensa

A perspectiva de Schofield contrasta com a opinião dominante na indústria. Segundo o relatório GDC State of the Game Industry 2026, 52% dos desenvolvedores acreditam que a IA generativa tem um impacto negativo na indústria, um aumento significativo em relação aos 30% do ano anterior.

Entre artistas visuais e técnicos, esse índice sobe para 64%, com apenas 7% vendo o impacto da GenAI de forma positiva. Isso levanta um dilema moral, onde muitos executivos usam IA contra suas convicções por uma questão de sobrevivência em um mercado em mutação.

O Peso de Quem Fala Isso

Schofield não vem de um lugar teórico. Com um custo de desenvolvimento de cerca de US$ 160 milhões para The Callisto Protocol, que enfrentou críticas mistas e um desempenho comercial abaixo do esperado, sua voz é alimentada por experiências reais de sucesso e fracasso.

Atualmente, ele manifesta suas reflexões sobre as dificuldades em viabilizar novos projetos, chegando a sugerir que talvez tenha comandado seu último jogo. Essa reflexão é interessante, pois parte de alguém que compreende plenamente o impacto da criatividade perante as pressões do mercado.

O debate sugere que enquanto a automação e a GenAI podem ser importantes, a criatividade e a experiência humanas continuarão a ser o diferencial que determinará quais estúdios sobreviverão na turbulenta indústria de jogos AAA. E agora, resta saber: estamos prontos para abraçar a criatividade em um mundo impulsionado por inteligência artificial, ou o medo do novo ainda nos impedirá de avançar?


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *